Previsto pelos maias para ser o ano do fim do mundo, 2012 termina com o
Corinthians como seu novo dono. Campeão da Libertadores da América, em junho, o
time foi para o Japão encarar uma parada dura na disputa da Copa do Mundo de
Clubes da Fifa. E em sua primeira decisão internacional, longe do Brasil, o time
deu um show dentro e fora de campo.
Depois de encarar os egípcios do Al Ahly e
vencer, na final, o time aguentou firme a pressão do Chelsea, equipe formada por
uma constelação de atletas. Eliminado na primeira fase da Liga dos Campeões da
Europa, dias antes (algo que não acontecia no continente desde 1978), o Chelsea
poderia ser encarado como um bicho-papão ferido. Só que o Corinthians e sua
imensa torcida tinham feito direito a lição de casa.
O segundo título mundial da história do Corinthians não foi fruto do
improviso. Já no dia 23 de setembro, semanas depois da conquista da
Libertadores, o gerente de futebol Edu Gaspar foi despachado para o Japão para
começar o trabalho de logística. Acompanhado do supervisor Saulo Magalhães,
levantou campos de treinamento nas regiões de Nagoia e Yokohama e também em
Dubai, nos Emirados Árabes, onde o time fez uma escala na ida, para começar a se
adaptar ao fuso de 11 horas de diferença para o Japão. Enquanto isso, a comissão
técnica decidiu colocar em prática um plano bolado pelo preparador físico Fábio
Mahseredjian (campeão mundial com o Inter em 2006): equilibrar o fôlego do
elenco corintiano, que chegaria ao fim da temporada já desgastado pelo
calendário.
Para repor jogadores que fizeram parte da conquista da Libertadores e tinham
ido embora, como os atacantes Liedson e William, foram contratados o peruano
Paolo Guerrero, com experiência de ter jogado no futebol alemão (no Bayern
Munique e no Hamburgo), e o argentino Juan 'Burrito' Martinez, que também era
pretendido pelo Santos, pela sua boa técnica e velocidade para puxar
contra-ataques. O zagueiro Paulo André assumiu a posição de Leandro Castán,
vendido para a Roma. E o Corinthians foi ganhando entrosamento, outra vez. Sem a
menor chance de brigar com o Fluminente pelo título, as seis rodadas finais do
Brasileiro seriam usadas para levantar o nível do time contra adversários
fortes, com o time jogando completo e para valer. 'Nâo queríamos chegar ao Japão
sem pegada', diz Tite. 'E nesse sentido até a derrota para o São Paulo foi boa
para que ligássemos o sinal de alerta de que era necessário produzir ainda
mais.'
Apesar de contratempos, como uma turbina barulhenta demais no voo da ida de
Dubai para Narita, do terremoto de 7,3 graus no nordeste do Japão e da ameaça de
jogar sob neve, o projeto corintiano no Japão seguiu adiante, sem sustos.
FINAL É OUTRA COISA
Teoricamente em vantagem - exatamente por estar no meio da temporada
europeia, enquanto os brasileiros acabaram de terminar a sua -, o Chelsea
queimou seu trunfo ao chegar a Tóquio cinco dias depois do desembarque
corintiano, após um jogo contra o Sunderland que poderia ser adiado. é verdade
que os ingleses não tomaram conhecimento do time mexicano do Monterrey, ganhando
fácil por 3 x 1. Mas, às vésperas da final, ainda se queixavam da adaptação ao
horário japonês.'Por causa do calendário apertado, chegamos ao Japão em cima da
hora e isso estava deixando o fuso meio embaralhado', admitiu o zagueiro David
Luiz. Corintiano fanático, a ponto de não perder uma transmissão de jogos de seu
time pelo rádio nos tempos de criança em Diadema (SP), o zagueiro da seleção
cumpriu o que prometeu na véspera: jogar para valer contra seu clube do coração
(veja no final da reportagem). Foi um leão na defesa e o melhor do Chelsea.
O
milagre de Cássio no chute de Cahill: nem trapalhada de Chicão complicou o
melhor do jogo / Crédito: Reprodução
A diferença de estratégia de preparo entre os dois oponentes - com o
Corinthians fazendo tudo certo e os ingleses nem tanto - acabou se refletindo no
gramado do estádio de Yokohama. Ao contrário dos mexicanos do Monterrey, os
corintianos aguentaram firmes o sufoco dos rivais nos primeiros 15 minutos. E aí
começou a surgir um dos heróis do jogo: o gaúcho Cássio, conhecido de Tite desde
os tempos em que era mascote do Veranópolis, treinado pelo técnico corintiano na
segunda divisão gaúcha. Dono da posição desde a Libertadores, Cássio fez um jogo
quase perfeito em Yokohama.
Quando parecia que iria falhar, o grandalhão de 1,95
metro levou sorte, como no chute de Cahill, de dentro da área, aos 10 minutos,
quando o reflexo do goleiro o ajudou a não levar o gol. Aos 38 minutos do
primeiro tempo, Cássio ampliou sua coleção de milagres ao esticar-se todo para
espalmar um chute com efeito de Moses, de pé direito. Ainda faria uma terceira
intervenção, saindo para buscar a bola nos pés de Mata, que fechava
perigosamente. E uma derradeira, a 9 minutos do fim, em chute de Fernando
Torres. 'Um dos pontos altos do nosso time é mesmo nossa capacidade de
defender', diz Tite. 'Em 16 jogos, somando Libertadores e Mundial, o time tomou
apenas quatro gols.'
HERÓI FERIDO
Apesar de sustos como esses, durante a final em Yokohama, os corintianos se
assentaram bem em campo, ocupando os espaços, não temendo os confrontos e
ganhando todas as segundas bolas. Criaram algumas chances, no primeiro tempo,
com Emerson: uma por cima, aos 28 minutos do primeiro tempo, outra que raspou a
trave, 6 minutos mais tarde. E, aos 23 minutos da etapa final, aconteceu a
explosão corintiana. Em uma jogada iniciada por Paulinho, a bola sobrou para
Danilo, que chutou firme, mas foi bloqueado por Cahill. No rebote, Guerrero teve
calma para tirar a bola do alcance de David Luiz, Cahill e Moses, em cima da
linha, e marcar, de cabeça, o gol que o coloca na história dos heróis
corintianos. E dizer que o atleta peruano, por um triz, não ficou de fora do
Campeonato Mundial de Clubes...
Exatamente no clássico contra o São Paulo, no último jogo do time pelo
Brasileirão, aquele que concluiria o planejamento para os jogos no Japão, Paolo
Guerrero teve um estiramento no joelho direito e mal conseguia andar. 'As dores
eram muito fortes e tive muito medo de não aguentá-las. Entrei mesmo no
sacrifício nesses dois jogos do Mundial, mas essa superação de todos é que faz o
Corinthians', disse a PLACAR o atacante peruano, que só jogou a competição
graças a infiltrações na tentativa de aliviar o joelho direito, machucado. Não
parou de fazer tratamento nem no longo voo que levou a delegação de São Paulo a
Dubai, na primeira escala da viagem. outra preocupação era como o peruano e
Emerson, que tinham jogado juntos menos de um tempo, se entenderiam. 'Um
atacante como Guerrero funciona como um pivô, retendo a bola e servindo para a
tabela com os homens que vêm de trás', afirma Tite. Felizmente, para os
corintianos, o atacante peruano não só suportou as dores como cumpriu exatamente
o que se esperava dele.
A vantagem deu ainda mais ânimo aos jogadores corintianos, que
multiplicavam-se em campo, fechando os espaços para os ingleses, e acendeu ainda
mais a torcida alvigra. Mas, em vez de partir desembestado para matar a partida,
o time brasileiro, frio como um Danilo, trocou passes e esperou o tempo passar,
controlando o ritmo da partida, que seguiu tensa, mas sem um sufoco dos
ingleses, que foram perdendo os nervos. Ainda mais quando Emerson conseguiu que
Cahill entrasse na sua provocação e o atingisse com um pontapé. Vermelho, sem
contestação. 'Uma coisa que o time do Corinthians coloca sempre é o grupo em
cima do individual', diz Paulinho. 'Procuramos atuar como um bloco, sempre
focados no jogo'.
Blatter
entrega o troféu para Alessandro: para o Corinthians, o melhor ataque foi a
defesa. / Crédito:
Alexandre Battibugli
Os primeiros gritos de 'é campeão!' começavam a vir de milhares de bocas que
lotavam o estádio Internacional de Yokohama e torciam pela vitória corintiana
(pelo menos dois terços dos 68225 torcedores apoiavam o Corinthians). 'Nossa
torcida joga junto à equipe: passa energia, recebe energia', disse Tite logo
depois da partida. 'Graças a ela, o Corinthians é um time intenso e pilhado.
Apaixonado até demais e orgulhoso.' E bota apaixonado nisso. À moda das
megaestrelas mundiais da música ou do cinema, o elenco corintiano foi
reverenciado por 15000 torcedores, que lotaram o saguão do aeroporto
internacional de Guarulhos na despedida do time. Quando pisou no Hilton Hotel, o
local da concentração da equipe em Nagoia, foi saudado por uma barulhenta
multidão de corintianos residentes no Japão (o que valeu uma placa proibindo a
entrada de torcedores logo na entrada do saguão). Nos seus dois jogos no Japão,
o time brasileiro foi acompanhado por multidões comparáveis às que o time leva
em suas partidas no Pacaembu. 'Falei ao Joseph Blatter, o presidente da Fifa,
que em 1000 anos nunca mais ele veria um fenômeno de paixão como esse', disse
Mário Gobbi, o presidente corintiano.
Assim, embalado pela força de sua torcida, o Corinthians não fez mistério às
vésperas da decisão contra o Chelsea. Ao contrário da equipe inglesa, cujo
técnico Rafa Benítez desconversou sobre a escalação de Lampard, confirmado
apenas momentos antes do jogo no lugar do brasileiro Oscar, Tite não quis saber
de despiste: já na véspera, anunciou que Jorge Henrique entraria no lugar de
Douglas (por sinal o homem que começou a jogada do gol corintiano na semifinal,
no estádio de Toyota, contra os egípcios do Al Ahly). 'Eu precisava do Jorge
Henrique para reforçar a marcação e a velocidade de saída das nossas bolas',
disse o técnico Tite.
Oportunista, Guerrero já tinha salvado o Corinthians na estreia contra os
egípcios do Al Ahly em um jogo esquisito. O Corinthians começou melhor, dando
pinta de que teria vida fácil. Ainda mais quando o peruano abriu o placar para
os brasileiros aos 29 minutos do primeiro tempo, na primeira - e única
finalização em gol dos brasileiros, depois de uma cobrança de escanteio de
Douglas, pulando junto com Danilo. Só que em vez de aliviar os nervos, naquela
noite fria em Toyota, a vantagem no marcador teve um efeito inverso: o
Corinthians recuou no segundo tempo, buscando um contra-ataque que nunca
apareceu.
E o campeão da África foi chegando. Por sorte, apesar de os egípcios
controlarem mais a bola, o trabalho da defesa, bem protegida pela dupla de
volantes Ralf e Paulinho, manteve atacantes perigosos, como Aboutrika, longe do
gol de Cássio. Com chutes de longa distância, eles até tentaram. Mas o Al Ahly
não foi nem de longe uma moleza. 'Esses times da África, Ásia e Concacaf entram
para o tudo ou nada no primeiro jogo contra os de América do Sul e Europa. Pesa
a estreia, o frio, que faz o pé congelar e a bola ficar mais rápida', conta
Danilo. 'Quando fui campeão pelo São Paulo, em 2005, a partida contra o Al
Ittihad, da Arábia Saudita, também foi uma dureza.'
O
lateral-direito Alessandro, sobrevivente da série B, com a taça / Crédito:
Alexandre BattibugliDUELO DE FILOSOFIAS
O jogo entre Chelsea e Corinthians marcou um embate entre duas filosofias.
Donos de um dos elencos mais caros do futebol mundial, os ingleses pareciam
certos de que eram a encarnação de um time do videogame Playstation, que nos
confrontos contra qualquer clube brasileiro quase sempre leva a melhor, com
jogadores muito mais graduados (não por acaso, o volante corintiano Paulinho
gosta de escolher a equipe inglesa durante os embates no jogoeletrônico, nas
concentrações).
Para contrapor-se a uma equipe com tantos talentos, o Corinthians teria de
jogar muito. 'Sabíamos que o melhor caminho para ganhar a partida seria tomarmos
a iniciativa e sermos corajosos contra uma grande equipe', disse Tite. 'Teríamos
de jogar como a nossa torcida espera.' foi exatamente esse o enredo da campanha
corintiana no Japão. Com uma diferença: o time tem consistência e capacidade de
manter o sangue-frio mesmo em momentos complicados dos jogos.
Para continuar fazendo bonito em 2013, o Corinthians está de olho em
reforços. Renato Augusto, meia, ex-Flamengo e que estava no Bayer
Leverkusen-ALE, já chegou. Para a zaga, Dedé, do Vasco, foi sondado. Gil,
ex-Cruzeiro, pode pintar também para a posição. No fim de dezembro, o
vice-presidente do Milan, Adriano Galliani, viria ao Brasil para finalizar a
venda do atacante Alexandre Pato para o Corinthians: a transação seria fechada
por 42 milhões de reais por 50% dos direitos. Na sua primeira decisão de um
título importante longe do Brasil, o Timão fez a lição de casa direitinho: e se
deu muitíssimo bem. Para a felicidade geral, a previsão dos maias, de que o
mundo acabaria, não vingou. Só que o planeta da bola já atende a uma nova era,
que tem um novo e legítimo dono - o Corinthians Paulista, cada vez mais
internacional. Que quer continuar brilhando para valer em 2013.
Corinthians
tem a marca mais valiosa entre os times brasileiros / Crédito: Reprodução
DO FUNDO DO POÇO AO TOPO DO MUNDO
O conto de fadas do Timão
2/12/2007 - O ABISMO Timão é rebaixado no Brasileiro .A crise afasta o
presidente Alberto Dualib.
4/12/2007 - O SALVADOR DA PÁTRIA Mano Menezes é contratado.
11/06/2008 - O SONHO ADIADO Perde a Copa do Brasil e a vaga na Libertadores
2009 para o Sport.
25/10/2008 - EU VOLTEI...O Corinthians venceo Ceará, no Pacaembu, e garante
ascenso à série A.
9/12/2008 - NO BANDO DE LOUCOS Ronaldo Fenômeno, com 32 anos, assina
contrato.
8/03/2009 - O FENÔMENO VOLTOU Nos acréscimos, Ronaldo faz de cabeça contra o
Palmeiras, em Presidente Prudente.
3/05/2009 - INVICTO Vence o Santos e é campeão paulista.Ronaldo arrebenta no
primeiro jogo da final com dois golaços.
1º/07/2009- A GRANDEZA RECONQUISTADA Vence o Inter na final da Copa do Brasil
e garante vaga na Libertadores no ano do centenário.
5/05/2010 - NADA DE AMOR Cai nas oitavas da Libertadores para o Flamengo.
2/02/2011 - O DRAMA DO TOLIMA Joga a pré-Libertadores contra o tolima-COL e é
eliminado. Time vira piada. Torcedores depredam carros de jogadores.
4/12/2011 - ALEGRIA E TRISTEZA O empate em 0 x 0com o Palmeiras, na última
rodada, garante o penta brasileiro no mesmo dia em que Sócrates morre.
22/04/2012 - TRINCO NA PONTE Eliminado do Paulista pela Ponte. Júlio César
falha e perde a posição para Cássio.
4/07/2012 - O DONO DA AMÉRICA Dois gols de Emerson, 2 x 0.O Timão derrota o
Boca e enfim vence a Libertadores.
16/DEZ/2012 - NO TOPO Ganha o Mundial de Clubes ao vencer oChelsea.
David
Luiz: derrota amarga no Japão / Crédito: Alexandre BattibugliO CORINTIANO
TRISTE
Zagueiro do Chelsea sofreu com a vitória do clube de coração
Assim que a decisão do Mundial de Clubes terminou, o zagueiro David Luiz
desabou no chão, olhando com olhar triste a comemoração dos alvinegros. Não se
animou nem quando recebeu a Bola de Prata da Fifa, como o segundo melhor jogador
do torneio, cercado pelos sorridentes Cássio e Paolo Guerrero. Olhos marejados,
ele nem parecia o garoto que já foi corintiano fanático. 'Nasci em Diadema e fui
um corintiano daqueles de ficarem pendurados no radinho de pilha escutando todos
os jogos do Timão', disse David Luiz, antes da grande final em Yokohama. 'Eu só
não ia ao estádio porque era longe, mas ficava de ouvido ligado nas faltas do
Célio Silva e do Marcelinho, nos dribles de Edílson e até no jogo viril do
zagueiro Henrique', afirmou.
A notícia caiu nos ouvidos dos torcedores corintianos, que cantaram uma
paródia da marchinha 'Coração corintiano' no estádio, incluindo o zagueiro em um
verso: 'Doutor, eu não me engano, David Luiz é corintiano'.
Fonte: Placar
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